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por Suelen Castilho. Tecnologia do Blogger.

Pronome Pessoal do Caso Reto


Em meio a tantos pronomes, o único que tem feito sentido é a primeira pessoa do singular. De forma bem egoísta, admito. Pouco me importo. O egocentrismo tem me tomado a cabeça. Repito compulsivamente, de jeito quase doentio, para não esquecer que o objeto central sou eu. Caso contrário, me perco. E esses desencontros são tão duradouros...


Autres Dimensions- Capítulo 4


Olhei para os dois lados da rua e não notei ninguém, então num súbito de coragem, atravessei e andei o mais rápido que conseguia.  A distância não era tão grande, então logo cheguei em casa. Abri o portão com rapidez, só queria me refugiar. Na verdade, não sabia ao certo de quem e do quê, o fato é que eu estava fugindo. Subi os degraus e me joguei na cama. Chamei por Johnny, que num pulo, fez acalmar meu coração. Mas eu ainda precisava saber o que tinha acontecido. Minha mente enlouquecida estava traçando planos e começando a desconfiar de tudo e todos. Comecei a imaginar cenas terríveis. Decidi então relatar os fatos naquela carta que escrevia sem remetente. Fui numerando o que tinha ocorrido. Até que percebi algo que antes não parecia ter ligação. Era Alexa. Era sempre ela. Tudo girando ao seu redor. Era ela, só podia ser!
Liguei então para a polícia, algo que eu devia ter feito desde o início. E relatei todos os fatos. A moça que me atendeu disse que havia uma outra ocorrência feita do mesmo bairro. E que uma viatura já estava fazendo a ronda. Me perguntou se eu tinha visto alguém suspeito que pudesse  facilitar as buscas.  Pensei por dois segundos, as cenas que havia criado em minha mente se repetiam e eu não hesitei, dei o número do apartamento de Rubem.
Como Alexa não escutou os gritos? Por que não atendeu o interfone? Alguma coisa errada tinha nessa história.
A  moça me agradeceu pela ajuda, jurou que minha identidade seria preservada. Abri um sorriso, de alívio.
Puxei a cortina e fiquei observando da janela. O dia já estava amanhecendo, o sol frio dava seus primeiros indícios. Até que vi uma viatura da polícia passar em direção à rua que dava para o apartamento luxuoso da cidade. Sabia do que eu tinha feito, sabia que a polícia bateria à porta de Alexa. Eu sabia!
Esperei alguns minutos e parti para lá. Queria que acreditassem que eu estava de chegada, numa visita cotidiana e que tudo não passava de um acaso. E foi o que aconteceu. Ao chegar na portaria, era possível perceber a movimentação. Dondocas assustadas, sem saber o que acontecia ao certo, desesperadas por respostas. Sentiam-se confrontadas por terem em seu prédio, seis policiais devidamente armados, passando por elas. Enquanto eles subiam pelo elevador, eu fui pela escadaria. Queria chegar depois. Queria saber se minhas suspeitas estavam realmente certas.
Demorei um pouco mais do que o esperado, afinal, nem em tempos atléticos da escola eu conseguiria subir seis andares com tanta facilidade. Quando cheguei, Alexa estava na porta, de camisola de seda, conversando com os policiais. Com uma expressão serena, repetia o mesmo que havia me dito. Estranhando a ausência de Rubem, perguntei por ele.  Alexa caguejou e tentou mudar de assunto. Fiz novamente a pergunta. Então ela disse que ele havia saído pra fazer uma caminhada.  Os policiais como não tinham um mandato, não poderiam entrar. E Alexa sabia disso, ela era esperta demais.  Conseguiu se livrar dos rapazes fardados. E tentou fazer o mesmo comigo.  Eu que já estava com a pulga atrás da orelha,  me convidei para tomar o café da manhã. Ela não conseguiu dizer não dessa vez. Entrei e observei a casa. Estava tudo em seu devido lugar. Sem nenhuma alteração.
O medo já não me pertencia e eu comecei a bancar o Sherlock Holmes. Era questão de honra descobrir o que ela tanto me escondia. Tantos anos de amizade me fazia ter certeza que estava sendo enganada. Só não sabia o que era.

Autres Dimensions - Capítulo 3



Alexa deu uma gargalhada escandalosa. Perguntei o que estava acontecendo e ela sem a menor consideração fez uma brincadeirinha maldosa com o tal senhor. Disse que o pobre estava andando à ermo na friagem, pois devia desconhecer o que era entrar o ano com o pé direito, já que aquela era sempre a última perna a chegar. Logo a repreendi, como de costume. Era sempre assim, desde pequeninas. Alexa parecia sentir prazer em desdenhar de qualquer pessoa que fosse. Na comemoração de um ano de casamento, Rubem em um surto de sinceridade, adquirido depois de quatro taças de champanhe, duas de vinho tinto e duas doses de uísque disse que Alexa tinha um gênio malvado, que era praticamente o demônio, e que não via razão para sermos amigas. Essa revelação resultou em quinze dias separados, até que ele comprou a joia mais cara da loja e a presenteou. Rubem sabia como domar a fera, bastava fazer o que ela queria.
Disse que iria atrás do moço. Poderia ser alguém precisando de ajuda, pensei. Recebi como resposta:
- Você é maluca!
E assim terminamos o papo, ela havia desligado, sem se despedir.
Por um instante dei ouvido à Alexa. E se aquele grito fosse originado de um ataque? E se esse senhor estivesse envolvido?
Ah, quer saber, irei arriscar – pensei em voz alta. Peguei o casaco mais quente que tinha, um cobertor e saí sem fazer barulho. Depois de caminhar por alguns minutos, encontrei o senhor encolhido, sentado num pedaço de concreto, olhando para o céu. Parecia pedir à Deus por salvação.  Fiz sinal e me aproximei, com cautela. Poderia ser um admirador da lua, um desabrigado ou um maníaco.
- Olá, está tudo bem por aqui?
O senhor apenas sacudiu a cabeça, concordando.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
Repetiu o gesto.
- Por que o senhor está sentado na praça, sozinho, na friagem?
Ele levantou a cabeça, olhou dentro dos meus olhos e me disse:
- Minha filha, a história é muito longa. E creio que você não esteja com vontade de perder seu precioso tempo conversando com um desconhecido que de nada acrescentará em sua vida. Agradeço pela preocupação, mas estou acostumado em observar as estrelas e esperar por elas sozinho. 
- Desculpa, é que escutei um grito e fiquei aflita. Olhei pela janela e pude ver a cidade e avistei apenas o senhor andando. Imaginei que precisasse de ajuda. Trouxe um cobertor, pegue-o.
- Jovem, isso é muito perigoso, sabia? Não faça mais isso. E se eu realmente fosse um bandido? Sua vida estaria em perigo agora, e você muito encrencada. Acho que deveria voltar para sua casa.
Fez uma pausa, como quem conversasse com seus pensamentos.  Entendi ali que a conversa estava encerrada, virei de costas e fiz a minha retirada. E, então, o senhor completou:
- Eu aceito o cobertor.
Voltei, entreguei com um sorriso de boca fechada, de canto de rosto e parti. Apressei o passo e chegando próximo da casa de Alexa, escutei pela terceira vez o grito. Era um grito estranho. De pavor, sofrimento. Agoniante. E dessa vez, parecia encerrar algo. Entrei em desespero. Comecei a suspeitar que estava sendo seguida. E realmente estava. Era o medo. Corri para o prédio de Alexa. Não tinha ninguém na portaria. Interfonei para o seu apartamento e não fui atendida.
Não sabia o que fazer. Precisava ir para casa, embora estivesse com os pés congelados. E dessa vez não era de frio.


Autres Dimensions- Capítulo 2


Minhas ideias começaram a se confundir. O que era real e irreal naquele momento!? Johnny continuava sereno, o que me deixava desconfiada. Certa vez, numa distração minha, deixei uma colher cair ao chão.
John que estava no jardim destruindo minhas roseiras entrou em transe e só se acalmou quando, numa segunda tentativa, tentei comprá-lo com seu biscoito favorito. Era no mínimo estranho.
Decidi desencanar, afinal, má notícia repercute rápido.
Voltei para a minha escrivaninha, e parecendo esperar que me acomodasse, o telefone toca.
Dei um pulo da cadeira de susto. O telefone identificava o número, era Alexa retornando minha ligação. Logo perguntou o que tinha acontecido  para estar com a voz tão amedrontada daquele jeito. Contei com detalhes o fato ocorrido e ela jurou que nada ouviu. Alexa mora no sexto andar de um prédio de classe alta da cidade, algumas quadras de minha casa, junto com seu marido Rubem.  De sua sacada há uma visão panorâmica de toda a cidade. Passei dois réveillons seguidos naquele lugar. Suas festas eram luxuosas, tradicionais e recrutava mais famosos que clínicas de reabilitação.
Pedi que olhasse e me desse com toda certeza como estava a cidade.
- Você quer mesmo que eu vá na sacada, nessa noite congelante, apenas para saber o que pode ter acontecido? Pare de besteira, Julieta. Deve ser algum cachorro abandonado correndo atrás de algum gato e assustando criancinhas.
A forma como Alexa sempre encarou a vida, às vezes me incomodava. Ela era displicente com os outros. Faltava amor ao próximo. Umas das características que sempre nos diferenciava.
- Alexa, me diga uma coisa: qual criança estaria na rua uma hora dessas? Numa noite vazia como essa?
E sem me deixar concluir o pensamento, ela disse:
- Ok, eu irei. Contra a minha vontade, mas eu irei.
E assim, Alexa abriu  a porta da sacada e olhando através de um binóculo disse ver um senhor andando vagarosamente. De chapéu, com vestimenta clara, puxando da perna direita na praça principal.

Autres Dimensions - Capítulo 1



Era um dia escuro, de penumbra. Tentava a todo custo me aquecer do gélido frio que fazia. Do lado de fora, era impossível encontrar uma viva alma. Todos escondidos dentro de suas casas, protegidos pelas lareiras que queimavam incessantemente. Talvez fosse um prenúncio do que aconteceria. Morava apenas eu e meu pequeno cão, Johnny. Esse era doce, amável, mas quando encucava com algo, latia por toda noite. Sentei na cadeira e comecei  a datilografar uma carta. Era só saudade, de quem eu nem sabia ao certo. Por isso decidi não colocar remetente. Fui apenas escrevendo, suplicando. Quando no silêncio que fazia, pude ouvir um grito ensurdecedor que parecia vir do lado de fora. Johnny estava dormindo o sono dos justos no tapete da porta. Ali estava, ali continuou. Puxei a cortina e olhei pela janela, numa tentativa vã de descobrir o ocorrido. A chuva caía torrencialmente, como quem quisesse lavar os vestígios, como quem quisesse purificar corpos. 
A cidade parecia abandonada, sombria. Comecei a questionar se de fato havia mesmo escutado aquele grito ou se não passava de um fruto da minha imaginação fértil. Desde criança, minha querida avó dizia que eu sempre fui de criar e recriar histórias. Me lembro bem de sua voz baixinha e trêmula, falando: 
- Pequena Julieta, como pode criar falsas verdades nessa cabeçinha? Isso um dia te complicará.
E ela estava mesmo certa, e aquele parecia ser mais um dos milhares de apuros que já me envolvi.
Desci as escadarias de minha casa, procurei a chave que deixava em cima da cômoda do corredor e tranquei a porta. Liguei para Alexa, uma amiga desde a infância e perguntei se havia escutado o mesmo que eu. Tenho quase certeza que atrapalhei algo, pois rapidamente ela me disse:
 - Não, não ouvi! Daqui a pouco retorno. 
E desligou. Fiquei intrigada. Era dúvida, era medo. 
Apaguei as luzes, acendi a minúscula luminária do canto da cama e fiquei na espreita. Se realmente tivera acontecido algo, alguém pediria socorro, curiosos passariam e chamariam uma ambulância.
Não sei ao certo quantos minutos se passaram, até que novamente escutei o mesmo grito. Dessa vez mais distante, mas com a mesma intensidade... 

Peixes


Nós vivemos como peixes;
Com a voz que nós calamos;
Com essa paz que não achamos.
Nós morremos como peixes;
Com amor que não vivemos;
Satisfeitos? Mais ou menos...






O sonho é popular

Vendem-se sonhos. De porta em porta. Empilhados em caixas de papel
Sem instruções e recomendações de uso
Desprestigiados, jogados ao vento, sem algum cuidado
Sem precauções. Sem significados. Mal armazenados
Oferecidos aos gritos.
Inacabados. Banalizados
Comprados apenas por um delírio de consumo
Como um objeto, um acessório qualquer
Que um dia terá utilidade. Não agora.
Expostos como uma fotografia na parede
E assim vão se revelando, desenhados na luz.
Visíveis à olho nu, vão acumulando poeira e causando reações alérgicas.
Provocam hipersensibilidade e são deixados de lado, sem sequer terem sido usados.