Alexa deu uma gargalhada escandalosa. Perguntei o que estava acontecendo e ela sem a menor consideração fez uma brincadeirinha maldosa com o tal senhor. Disse que o pobre estava andando à ermo na friagem, pois devia desconhecer o que era entrar o ano com o pé direito, já que aquela era sempre a última perna a chegar. Logo a repreendi, como de costume. Era sempre assim, desde pequeninas. Alexa parecia sentir prazer em desdenhar de qualquer pessoa que fosse. Na comemoração de um ano de casamento, Rubem em um surto de sinceridade, adquirido depois de quatro taças de champanhe, duas de vinho tinto e duas doses de uísque disse que Alexa tinha um gênio malvado, que era praticamente o demônio, e que não via razão para sermos amigas. Essa revelação resultou em quinze dias separados, até que ele comprou a joia mais cara da loja e a presenteou. Rubem sabia como domar a fera, bastava fazer o que ela queria.
Disse que iria atrás do moço. Poderia ser alguém precisando de ajuda, pensei. Recebi como resposta:
- Você é maluca!
E assim terminamos o papo, ela havia desligado, sem se despedir.
Por um instante dei ouvido à Alexa. E se aquele grito fosse originado de um ataque? E se esse senhor estivesse envolvido?
Ah, quer saber, irei arriscar – pensei em voz alta. Peguei o casaco mais quente que tinha, um cobertor e saí sem fazer barulho. Depois de caminhar por alguns minutos, encontrei o senhor encolhido, sentado num pedaço de concreto, olhando para o céu. Parecia pedir à Deus por salvação. Fiz sinal e me aproximei, com cautela. Poderia ser um admirador da lua, um desabrigado ou um maníaco.
- Olá, está tudo bem por aqui?
O senhor apenas sacudiu a cabeça, concordando.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
Repetiu o gesto.
- Por que o senhor está sentado na praça, sozinho, na friagem?
Ele levantou a cabeça, olhou dentro dos meus olhos e me disse:
- Minha filha, a história é muito longa. E creio que você não esteja com vontade de perder seu precioso tempo conversando com um desconhecido que de nada acrescentará em sua vida. Agradeço pela preocupação, mas estou acostumado em observar as estrelas e esperar por elas sozinho.
- Desculpa, é que escutei um grito e fiquei aflita. Olhei pela janela e pude ver a cidade e avistei apenas o senhor andando. Imaginei que precisasse de ajuda. Trouxe um cobertor, pegue-o.
- Jovem, isso é muito perigoso, sabia? Não faça mais isso. E se eu realmente fosse um bandido? Sua vida estaria em perigo agora, e você muito encrencada. Acho que deveria voltar para sua casa.
Fez uma pausa, como quem conversasse com seus pensamentos. Entendi ali que a conversa estava encerrada, virei de costas e fiz a minha retirada. E, então, o senhor completou:
- Eu aceito o cobertor.
Voltei, entreguei com um sorriso de boca fechada, de canto de rosto e parti. Apressei o passo e chegando próximo da casa de Alexa, escutei pela terceira vez o grito. Era um grito estranho. De pavor, sofrimento. Agoniante. E dessa vez, parecia encerrar algo. Entrei em desespero. Comecei a suspeitar que estava sendo seguida. E realmente estava. Era o medo. Corri para o prédio de Alexa. Não tinha ninguém na portaria. Interfonei para o seu apartamento e não fui atendida.
Não sabia o que fazer. Precisava ir para casa, embora estivesse com os pés congelados. E dessa vez não era de frio.


