Olhei para os dois lados da rua e não notei ninguém,
então num súbito de coragem, atravessei e andei o mais rápido que conseguia. A distância não era tão grande, então logo
cheguei em casa. Abri o portão com rapidez, só queria me refugiar. Na verdade,
não sabia ao certo de quem e do quê, o fato é que eu estava fugindo. Subi os degraus e me joguei na cama. Chamei
por Johnny, que num pulo, fez acalmar meu coração. Mas eu ainda precisava
saber o que tinha acontecido. Minha mente enlouquecida estava traçando planos e
começando a desconfiar de tudo e todos. Comecei a imaginar cenas terríveis.
Decidi então relatar os fatos naquela carta que escrevia sem remetente. Fui
numerando o que tinha ocorrido. Até que percebi algo que antes não parecia ter
ligação. Era Alexa. Era sempre ela. Tudo girando ao seu redor. Era ela, só
podia ser!
Liguei então para a polícia, algo que eu devia ter feito desde o
início. E relatei todos os fatos. A moça que me atendeu disse que havia uma
outra ocorrência feita do mesmo bairro. E que uma viatura já estava fazendo a
ronda. Me perguntou se eu tinha visto alguém suspeito que pudesse facilitar as buscas. Pensei por dois segundos, as cenas que havia
criado em minha mente se repetiam e eu não hesitei, dei o número do apartamento
de Rubem.
Como Alexa não escutou os gritos? Por que não atendeu o interfone?
Alguma coisa errada tinha nessa história.
A moça me agradeceu pela ajuda, jurou que minha identidade seria preservada. Abri um sorriso, de alívio.
Puxei a cortina e fiquei observando da janela. O dia já estava amanhecendo, o sol frio dava seus primeiros
indícios. Até que vi uma viatura da polícia passar em
direção à rua que dava para o apartamento luxuoso da cidade. Sabia do que eu
tinha feito, sabia que a polícia bateria à porta de Alexa. Eu sabia!
Esperei alguns minutos e parti para lá. Queria que
acreditassem que eu estava de chegada, numa visita cotidiana e que tudo não
passava de um acaso. E foi o que aconteceu. Ao chegar na portaria, era possível
perceber a movimentação. Dondocas assustadas, sem saber o que acontecia ao
certo, desesperadas por respostas. Sentiam-se confrontadas por terem em seu
prédio, seis policiais devidamentes armados, passando por eles.
Enquanto eles subiam pelo elevador, eu fui pela escadaria. Queria chegar
depois. Queria saber se minhas suspeitas estavam realmente certas.
Demorei um pouco mais do que o esperado, afinal, nem em tempos atléticos da escola eu conseguiria subir seis andares com tanta facilidade. Quando cheguei, Alexa estava na porta, de camisola de seda,
conversando com os policiais. Com uma expressão serena, repetia o mesmo que
havia me dito. Estranhando a ausência de Rubem, perguntei por ele. Alexa caguejou e tentou mudar de assunto. Fiz
novamente a pergunta. Então ela disse que ele havia saído pra fazer uma
caminhada. Os policiais como não tinham um
mandato, não poderiam entrar. E Alexa sabia disso, ela era esperta demais. Conseguiu se livrar dos rapazes fardados. E
tentou fazer o mesmo comigo. Eu que já estava com a pulga atrás da orelha, me convidei para tomar o café da manhã.
Ela não conseguiu dizer não dessa vez. Entrei e observei a casa. Estava tudo em
seu devido lugar. Sem nenhuma alteração.
O medo já não me pertencia e eu comecei a bancar o Sherlock
Holmes. Era questão de honra descobrir o que ela tanto me escondia. Tantos
anos de amizade me fazia ter certeza que estava sendo enganada. Só não sabia o
que era.


