Era um dia escuro, de penumbra. Tentava a todo custo me aquecer do gélido frio que fazia. Do lado de fora, era impossível encontrar uma viva alma. Todos escondidos dentro de suas casas, protegidos pelas lareiras que queimavam incessantemente. Talvez fosse um prenúncio do que aconteceria. Morava apenas eu e meu pequeno cão, Johnny. Esse era doce, amável, mas quando encucava com algo, latia por toda noite. Sentei na cadeira e comecei a datilografar uma carta. Era só saudade, de quem eu nem sabia ao certo. Por isso decidi não colocar remetente. Fui apenas escrevendo, suplicando. Quando no silêncio que fazia, pude ouvir um grito ensurdecedor que parecia vir do lado de fora. Johnny estava dormindo o sono dos justos no tapete da porta. Ali estava, ali continuou. Puxei a cortina e olhei pela janela, numa tentativa vã de descobrir o ocorrido. A chuva caía torrencialmente, como quem quisesse lavar os vestígios, como quem quisesse purificar corpos.
A cidade parecia abandonada, sombria. Comecei a questionar se de fato havia mesmo escutado aquele grito ou se não passava de um fruto da minha imaginação fértil. Desde criança, minha querida avó dizia que eu sempre fui de criar e recriar histórias. Me lembro bem de sua voz baixinha e trêmula, falando:
- Pequena Julieta, como pode criar falsas verdades nessa cabeçinha? Isso um dia te complicará.
E ela estava mesmo certa, e aquele parecia ser mais um dos milhares de apuros que já me envolvi.
Desci as escadarias de minha casa, procurei a chave que deixava em cima da cômoda do corredor e tranquei a porta. Liguei para Alexa, uma amiga desde a infância e perguntei se havia escutado o mesmo que eu. Tenho quase certeza que atrapalhei algo, pois rapidamente ela me disse:
- Não, não ouvi! Daqui a pouco retorno.
E desligou. Fiquei intrigada. Era dúvida, era medo.
Apaguei as luzes, acendi a minúscula luminária do canto da cama e fiquei na espreita. Se realmente tivera acontecido algo, alguém pediria socorro, curiosos passariam e chamariam uma ambulância.
Não sei ao certo quantos minutos se passaram, até que novamente escutei o mesmo grito. Dessa vez mais distante, mas com a mesma intensidade...


