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por Suelen Castilho. Tecnologia do Blogger.

Por onde andei


Não me sinto culpada
E as tentativas serão em vão
Não quero que depositem em mim aquilo que não sou.
E nem nunca poderei ser.
Não crie expectativas
Eu vou decepcionar
Sou feita de erros, de defeitos.
E você também
Quando prometo acertar
Não acredite, eu vou trapacear.



Ainda que tudo desmorone, ainda que eu viva só, deixarei sempre o meu coração me guiar.

Mais do mesmo

'Bondade sua me explicar com tanta determinação exatamente o que eu sinto, como penso e como sou.'


                                                                                   (Legião Urbana)

Manutenção


Sou um vinil
Necessito de extremos cuidados
Sou raridade
Difícil de encontrar
Sou colecionadora de mim mesma
Mas não colecionável.

Sou envelopada
De toques e retoques
De jeitos e trejeitos
Do contrário, me prendo
E  perdemos a música.

Sou leve 
Gosto da água
Mas não dos rabiscos
Muito menos das restaurações
Sou feita de processos
E durabilidades.

O mofo e a poeira me esgotam
Preciso que me guardem, com carinho
Pareço mágica, mas existo.
Mas não resolva me empilhar
Sou intolerante.

Batidas


O coração fica pequeno, apertado...
Dói na alma
A canção que só eu posso escutar
Está descompassada
E junto vem a saudade
Daquilo que ainda nem foi
Daquilo que nem sei.




'Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.'
                                                                            (Guimarães Rosa)





Autres Dimensions- Capítulo Final


Enquanto Alexa falava descontroladamente, imaginei o quanto um ser pode ser cruel. Eu já havia criado um monstro na minha cabeça, e ninguém conseguiria me fazer mudar de ideia. Alexa havia matado Rubem e escondido o corpo. Talvez na adega, talvez na parede em manutenção da lavanderia... ou quem sabe no jardim? O fato é que eu só precisava descobrir o local. A voz que antes era amigável, naquele momento se tornou irritante. Decidi ir para minha casa e assim fiz. Passei o resto do dia pensando e inconscientemente   traçando algum plano.
Isso! Está decidido!
Desci as escadarias correndo, peguei minha bolsa e saí. Passei na cartomante e pedi para que me indicasse um caminho nas cartas. E eis que a senhora com toda convicção, olhou dentro de meus olhos e me disse:
 - Minha filha, você está fazendo a escolha errada. Não deixe que seu coração puro seja tomado pela raiva. Não há construção desse jeito, apenas derrota.
As palavras entraram de um lado e saíram de outro. Escolhi as três cartas e em todas, a vidência de mau agouro, abnegação e sacríficio.
Naquele estágio, nada mais importava. Eu tinha vivido por anos com uma assassina. Contado segredos e compartilhado momentos. Estava me sentindo corrompida. Fui para a casa de Alexa. Ela estranhou, mas me deixou subir. Rubem, como já imaginava, não estava lá. Afinal, um morto não transita pela casa. Não nas dimensões da realidade e do concreto. Fui convidada para o jantar, sentei à mesa, só nós duas, como por muito tempo sempre foi.
Conversamos como boas e velhas amigas que éramos. Alexa cortou a conversa para buscar mais vinho. E foi então, que deu-se o fim.
No dia seguinte, recebi uma ligação às 6:06 da manhã. E quando atendi, vi ruínas em minha frente. Era Rubem aos prantos avisando da morte de Alexa.
Atônita, sem reação, foi assim que eu estava. Era Rubem. Como podia... Como?
O que eu havia feito? No que eu havia me transformado?  Rubem depois de agilizar todos os trâmites, passou para ver como eu estava. E fez questão de relatar o quanto éramos diferentes.
No fundo, Rubem estava errado. Eu, Julieta, havia me tornado, depois de anos de amizade, uma cópia fiel de Alexa.


Autres Dimensions- Capítulo 5


Meus olhos corriam, apressados por detalhes. Percebi um espelho fora do lugar na sala de estar. Estava torto, mal colocado. Era o cofre que Alexa mantinha, uma espécie de cômodo secreto. Uma vez ela havia me dito que guardava jóias, pinturas raríssimas compradas em leilões e outros bens que julgava valiosos. Estranhei.
- Vou tomar um banho rápido. Fique à vontade. Aliás, eu nem preciso dizer isto – disse Alexa.
Era o tempo que precisava. O cofre tinha uma combinação, eu só precisava descobrir qual. Tentei todos os números possíveis. Nenhum abriu. Estava quase desistindo quando, por acaso, coloquei a data do casório mais o número do apartamento. E voilà! Fiquei surpresa com tanta sorte. E com o fato de Alexa, que julgava ser tão malandra, fazer uma combinação tola dessas.
Entrei pela mini porta e para minha decepção, não havia nada de anormal, além de muito luxo esbanjado em brincos, anéis, colares e apólices. Muitas!  
Folheando-as, encontrei marcas de sangue e uma carta intitulada com tom de despedida.
Não pensei duas vezes e abri correndo, era de Rubem, mas aquela letra... aquela letra não era dele.
No papel dizia o quanto ele lutou pela felicidade de Alexa, o motivo de deixar todos seus bens e não compartilhar com nenhum familiar. Eram muitas linhas, mas por fim dizia que a única chance que ele havia de salvá-la era obrigando a fazer o que ele estava por planejar.
Ele falava de vida na mesma co-relação de morte. E ainda tinha a audácia de envolver felicidade e amor nesta mesma história? Pecador!
Na verdade, pecadora! Aquela letra era de Alexa, eu não podia me enganar. Por tantas vezes, ela havia me escrito mensagens e deixava coladas em minha geladeira. Então, o plano dela era mais sórdido do que eu imaginava.
Ouvi um barulho e imaginei que seu banho havia terminado. Saí, fechei a combinação e esperei aparecer.
E assim ela surgiu, com aquele ar imbatível.



Parte do que sou.

Desprezou os covardes, os presunçosos e os medíocres... Contentou-se em nunca ler os fabricantes de literaturas tolas. Em meio à injustiça era justo. Aplaudiu a quem acreditou que merecia... Não se sabe se foi moral ou imoral ou amoral; mas pôs a beleza e a verdade – sua verdade  – acima de tudo... Quanto à arte, acreditou sempre que se podia e se devia ser original, sem esquecer-se do nihil novum sub sole...




Rufino Blanco Fombona

Fórmula Mágica

Uma vez  me disseram que ao cair do penhasco você não sai ileso.
E foi com esse pensamento que segui em caminho da montanha mais alta.
Entre pedras que ora e outra precisei desviar para não tropeçar, tentei esvaziar o acúmulo de preocupações que nunca me levaram à lugar algum. Apenas me puxavam e me engoliam por inteira.
Percebi que durante esse trajeto, pássaros me seguiam e tudo que eu podia fazer era esperar que eles me guiassem através da escuridão.
Com cantos leves, em sintonia, interlocutava comigo a todo tempo, por todo o destino.
Ao chegar lá em cima, me dei conta de que não havia opção. A decisão teria que ser feita naquele momento. Sentei na ponta do penhasco, perante à uma linda paisagem e então escolhi.
Eu ainda quero correr para a vida.

Da primavera ao inverno.

Os rasgos, os traços, o papel.
Amassados, amarelados, tombados pelo tempo.
Tempo esse que não passa, voa.
Cronologia errônea. E eu erro, a cada passo.
Crio, recrio e desfaço. Tudo nessa relatividade.
Das voltas que dou, giro o mundo.
Gira mundo, mundo gira.
__

Me enrolo nos laços e me encaixo
Nas lembranças e nos seus abraços.
Gasto a vida sorrindo.
Por saber do meu amor
__

Meu coração anda sozinho
Acompanhado de espaços
De porta entre aberta, aguardo
O dia em que você chegará.
Enquanto isso, continuo
No gira mundo, mundo gira.