Fez-se mar


A calmaria que sempre pediu, nunca chegou.
O mar revolto trazia toda a sua fúria.
Não sabia sequer o que era silêncio, tão pouco paz.
Batia nas pedras em busca.
Passou dias.
Passaram meses.
As mesmas fotografias, como retratos, não mais espelhos.
Espelhos d'água que não se fez
Espelhos d'alma que se perdeu.
Fecha os olhos, menina
E escuta as cantorias deste mar.
Abre os olhos, menina
Mesmo cansada de sonhar.


...........................


                                                                                                 Sento-me, mar, a ouvir-te 
                                                                                          Te sentarias tu, mar, para escutar-me?

                                                                                                          (Vinicius de Moraes)

Retorno


Sempre tive medo dessa eterna falta do que falar
As folhas nunca ficaram tão brancas e intactas.
Mesmo com palavras soltas e um emaranhado de sentimentos.
Falta colocar em ordem
A casa, a vida e o coração.


Oh, darling...


Eu quis escrever pra você e dizer tudo que senti por anos.
Contar que por noites só fiz chorar.
Falar de todas as dores e do que ainda batia aqui, insistente.
Eu quis listar as minhas fraquezas e te fazer responsável por parte dos meus defeitos.
Soltar todos os monstros. De uma só vez, sem pensar.
Eu quis te culpar pelos erros, e fiz
Da mesma forma que você fazia.
Eu quis escrever todas as canções e relembrar.
Todas que pensei que fossem.
Foi então que eu percebi que era apenas uma, e ela nem falava de amor.



It's all right! Or not...


Não pensa, não fala, não olha. E assim, mantêm sua arma mais devastadora; a indiferença.
O ritmo cardíaco continua, a respiração e a vida. E você está out.
Colocado à força para fora.
Lágrimas e dramas.
Tornou-se refém do orgulho.
Alheio aos problemas mesquinhos, o mundo não pára. Nem o tempo.
E você continua out
A menina que já não sabe mais, diz: - Não me permito entristecer.
Mas já fez isso, antes que tivesse percebido.






Pequenas doses


Poderia parar de falar do amor, da esperança e dos bons sentimentos.
Afinal, vivemos rodeados da maldade, do insucesso, da infelicidade.
E engolimos em pequenas doses. Mínimas, sem tira gosto.

Poderia parar de falar dos sonhos, da verdade e dos seres de bom coração.
O mundo é egoísta demais e têm horas que parece perda de tempo.

Poderia parar de questionar e ter opinião própria.
Absorver e aceitar tudo parece bem mais fácil.

Poderia parar de rir e tentar ser feliz.
Isso incomoda pessoas ao redor e acaba afastando-as.

Poderia parar de dançar.
Porque o ritmo da sua música é diferente do meu.

Poderia parar de escrever.
Ninguém lê, ninguém se importa.

Mas aí, eu me tornaria igual aos demais.
E isso me parece terrível.

Ah, se eu soubesse lhe dizer


Têm dias que me sinto assim.
A inconstância dos fatos me assombram.
Tenho medos banais e danos irreparáveis.
Ninguém percebe. O coração sempre engana. O sorriso também.
A gente sempre disfarça melhor do que a cena combinada.
Faço parte do théatron. Há uma linha tênue entre real e imaginário. Sou essa confusão.
Mas sigo resistindo.
A tudo, a todos.

Das escolhas da vida


Estava sempre rodeada de pessoas diferentes e até mesmo incompatíveis, mas conseguia uni-los.
Tinha o jeito de ser adorável quando queria. Era de uma personalidade insólita. Acreditava na bondade, no amor, na felicidade e nas pessoas.
Achava ignorância toda e qualquer tipo de submissão e alienamento. E assim era julgada. 
Achava tolice discussões, ninguém nunca iria te ouvir. Assim como achava todos uns tolos, não merecedores, mas que se faziam acreditar merecer.
Os outros e suas convicções supremas. Bobinhos...
Tinha uma timidez na dose certa. Oras queria se refugiar, oras queria se aparecer. Nunca se escondeu de pessoas. Acreditava que só era possível ver aqueles que deixavam ser vistos. Assim como no amor, onde só recebem afago e carinho aqueles que se permitem. Acreditava nas suas vontades, acreditava na sintonia. Não tolerava aqueles que falavam e não mantinham suas vozes. E além disso, aqueles que distorciam argumentos para poder se fazer valer. Porque eles nunca estavam errados.
Como se isso fosse preciso. Como se isso fosse necessário...
O tempo passou, e ela continua rodeada de pessoas diferentes, porque seu coração é mutável. 
Ela continua rodeada. 
E aqueles que eram donos da verdade, esses, estão lá, tentando (sobre)viver
Sozinhos, amargurados.



The Laughing Heart



'Sua vida é a sua vida. Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.'
                                  (Charles Bukowski)




Por onde andei


Não me sinto culpada
E as tentativas serão em vão
Não quero que depositem em mim aquilo que não sou.
E nem nunca poderei ser.
Não crie expectativas
Eu vou decepcionar
Sou feita de erros, de defeitos.
E você também
Quando prometo acertar
Não acredite, eu vou trapacear.



Ainda que tudo desmorone, ainda que eu viva só, deixarei sempre o meu coração me guiar.

Mais do mesmo

'Bondade sua me explicar com tanta determinação exatamente o que eu sinto, como penso e como sou.'


                                                                                   (Legião Urbana)

Manutenção


Sou um vinil
Necessito de extremos cuidados
Sou raridade
Difícil de encontrar
Sou colecionadora de mim mesma
Mas não colecionável.

Sou envelopada
De toques e retoques
De jeitos e trejeitos
Do contrário, me prendo
E  perdemos a música.

Sou leve 
Gosto da água
Mas não dos rabiscos
Muito menos das restaurações
Sou feita de processos
E durabilidades.

O mofo e a poeira me esgotam
Preciso que me guardem, com carinho
Pareço mágica, mas existo.
Mas não resolva me empilhar
Sou intolerante.

Batidas


O coração fica pequeno, apertado...
Dói na alma
A canção que só eu posso escutar
Está descompassada
E junto vem a saudade
Daquilo que ainda nem foi
Daquilo que nem sei.




'Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.'
                                                                            (Guimarães Rosa)





Autres Dimensions- Capítulo Final


Enquanto Alexa falava descontroladamente, imaginei o quanto um ser pode ser cruel. Eu já havia criado um monstro na minha cabeça, e ninguém conseguiria me fazer mudar de ideia. Alexa havia matado Rubem e escondido o corpo. Talvez na adega, talvez na parede em manutenção da lavanderia... ou quem sabe no jardim? O fato é que eu só precisava descobrir o local. A voz que antes era amigável, naquele momento se tornou irritante. Decidi ir para minha casa e assim fiz. Passei o resto do dia pensando e inconscientemente   traçando algum plano.
Isso! Está decidido!
Desci as escadarias correndo, peguei minha bolsa e saí. Passei na cartomante e pedi para que me indicasse um caminho nas cartas. E eis que a senhora com toda convicção, olhou dentro de meus olhos e me disse:
 - Minha filha, você está fazendo a escolha errada. Não deixe que seu coração puro seja tomado pela raiva. Não há construção desse jeito, apenas derrota.
As palavras entraram de um lado e saíram de outro. Escolhi as três cartas e em todas, a vidência de mau agouro, abnegação e sacríficio.
Naquele estágio, nada mais importava. Eu tinha vivido por anos com uma assassina. Contado segredos e compartilhado momentos. Estava me sentindo corrompida. Fui para a casa de Alexa. Ela estranhou, mas me deixou subir. Rubem, como já imaginava, não estava lá. Afinal, um morto não transita pela casa. Não nas dimensões da realidade e do concreto. Fui convidada para o jantar, sentei à mesa, só nós duas, como por muito tempo sempre foi.
Conversamos como boas e velhas amigas que éramos. Alexa cortou a conversa para buscar mais vinho. E foi então, que deu-se o fim.
No dia seguinte, recebi uma ligação às 6:06 da manhã. E quando atendi, vi ruínas em minha frente. Era Rubem aos prantos avisando da morte de Alexa.
Atônita, sem reação, foi assim que eu estava. Era Rubem. Como podia... Como?
O que eu havia feito? No que eu havia me transformado?  Rubem depois de agilizar todos os trâmites, passou para ver como eu estava. E fez questão de relatar o quanto éramos diferentes.
No fundo, Rubem estava errado. Eu, Julieta, havia me tornado, depois de anos de amizade, uma cópia fiel de Alexa.


Autres Dimensions- Capítulo 5


Meus olhos corriam, apressados por detalhes. Percebi um espelho fora do lugar na sala de estar. Estava torto, mal colocado. Era o cofre que Alexa mantinha, uma espécie de cômodo secreto. Uma vez ela havia me dito que guardava jóias, pinturas raríssimas compradas em leilões e outros bens que julgava valiosos. Estranhei.
- Vou tomar um banho rápido. Fique à vontade. Aliás, eu nem preciso dizer isto – disse Alexa.
Era o tempo que precisava. O cofre tinha uma combinação, eu só precisava descobrir qual. Tentei todos os números possíveis. Nenhum abriu. Estava quase desistindo quando, por acaso, coloquei a data do casório mais o número do apartamento. E voilà! Fiquei surpresa com tanta sorte. E com o fato de Alexa, que julgava ser tão malandra, fazer uma combinação tola dessas.
Entrei pela mini porta e para minha decepção, não havia nada de anormal, além de muito luxo esbanjado em brincos, anéis, colares e apólices. Muitas!  
Folheando-as, encontrei marcas de sangue e uma carta intitulada com tom de despedida.
Não pensei duas vezes e abri correndo, era de Rubem, mas aquela letra... aquela letra não era dele.
No papel dizia o quanto ele lutou pela felicidade de Alexa, o motivo de deixar todos seus bens e não compartilhar com nenhum familiar. Eram muitas linhas, mas por fim dizia que a única chance que ele havia de salvá-la era obrigando a fazer o que ele estava por planejar.
Ele falava de vida na mesma co-relação de morte. E ainda tinha a audácia de envolver felicidade e amor nesta mesma história? Pecador!
Na verdade, pecadora! Aquela letra era de Alexa, eu não podia me enganar. Por tantas vezes, ela havia me escrito mensagens e deixava coladas em minha geladeira. Então, o plano dela era mais sórdido do que eu imaginava.
Ouvi um barulho e imaginei que seu banho havia terminado. Saí, fechei a combinação e esperei aparecer.
E assim ela surgiu, com aquele ar imbatível.



Parte do que sou.

Desprezou os covardes, os presunçosos e os medíocres... Contentou-se em nunca ler os fabricantes de literaturas tolas. Em meio à injustiça era justo. Aplaudiu a quem acreditou que merecia... Não se sabe se foi moral ou imoral ou amoral; mas pôs a beleza e a verdade – sua verdade  – acima de tudo... Quanto à arte, acreditou sempre que se podia e se devia ser original, sem esquecer-se do nihil novum sub sole...




Rufino Blanco Fombona

Fórmula Mágica

Uma vez  me disseram que ao cair do penhasco você não sai ileso.
E foi com esse pensamento que segui em caminho da montanha mais alta.
Entre pedras que ora e outra precisei desviar para não tropeçar, tentei esvaziar o acúmulo de preocupações que nunca me levaram à lugar algum. Apenas me puxavam e me engoliam por inteira.
Percebi que durante esse trajeto, pássaros me seguiam e tudo que eu podia fazer era esperar que eles me guiassem através da escuridão.
Com cantos leves, em sintonia, interlocutava comigo a todo tempo, por todo o destino.
Ao chegar lá em cima, me dei conta de que não havia opção. A decisão teria que ser feita naquele momento. Sentei na ponta do penhasco, perante à uma linda paisagem e então escolhi.
Eu ainda quero correr para a vida.

Da primavera ao inverno.

Os rasgos, os traços, o papel.
Amassados, amarelados, tombados pelo tempo.
Tempo esse que não passa, voa.
Cronologia errônea. E eu erro, a cada passo.
Crio, recrio e desfaço. Tudo nessa relatividade.
Das voltas que dou, giro o mundo.
Gira mundo, mundo gira.
__

Me enrolo nos laços e me encaixo
Nas lembranças e nos seus abraços.
Gasto a vida sorrindo.
Por saber do meu amor
__

Meu coração anda sozinho
Acompanhado de espaços
De porta entre aberta, aguardo
O dia em que você chegará.
Enquanto isso, continuo
No gira mundo, mundo gira.


Adorável Psicose

"Se for pra tomar uma iniciativa, tome-a com firmeza. Caso contrário, nem se dê ao trabalho. Pede pra sair! Que o pelotão se vira bem, aspira."

No light, no light


Essa é só uma história.
Da menininha que não sabia o poder das palavras
Com sua pouca idade, acreditava que nada era capaz de ferir
Não sabia o que era maldade.
Fazia desenhos com traços tortos, sem firmeza.
E ficavam lindos, porque eram puros.
Ingênua, falava mais sim do que não.
Não sabia o que era o amor, mas vivia apenas dele.

O tempo foi passando
E ela viu como realmente era o mundo
Onde pessoas roubam esperanças
E criam monstros
Por tão pouco.
Por nada.
Acreditou que para sobreviver precisava fazer parte do coletivo
E se corrompeu.

E ela era apenas uma menininha...